sábado, 22 de janeiro de 2011

Uma questão de relatividade


Foto via BHY
Quando me descobri gay já entrei em um relacionamento que durou três anos e meio, mas como tudo na vida tem um fim, meu namoro também teve e sem expericência alguma fui lançado ao mercado de carnes. Uma das coisas que mais me impactou e que não entendi por, até então, não fazer parte do meu cotidiano, é essa 'especificação técnica' que alguns gays tem de sou 'ativo', 'passivo', 'versátil'.

Já vi amigos deixarem pretendentes excelentes apenas por desconfiar que o dito-cujo fosse só passivo ou só ativo, já vi casais brigarem por um ser só ativo, assim com já ouvi relatos de casais em que havia estress pra saber quem seria passivo primeiro.

Passividades e atividades à parte, parei pra questionar alguns amigos sobre o assunto: P. me disse que não gosta de ser passivo por se sentir muito gay, porém acredito que o buraco seja um pouco mais embaixo (sem trocadilhos). B. afirmou preferir ser passivo, mas que não abre mão de ser ativo de vez em quando. Enquanto RB. disse que depende muito do cara que está com ele: as vezes sente vontade de ser só passivo, as vezes só ativo, assim como há vezes em que faz os dois papéis.

Três pessoas, três respostas completamente distintas e várias dúvidas na minha cabeça. Por qual motivo um cara não gostaria de ser passivo? Dor? Sensação de incomodo? Frescura? Apelo psicológico? Ao mesmo tempo, por quê alguém preferiria ser só ativo? Não seria melhor se o mundo fosse flex?

Os mais brandos que me desculpem, mas eu, no auge de minhas preferências flexíveis, sou um pouco xiita quando o assunto é sexo. Odeio rótulos e talvez por isso acredito que 'se é pra ser só ativo', fique com mulheres! Se é pra ser só passivo, se opere!

Ser só passivo seria negar a masculidade que você possui e super valorizar a masculinidade do outro, já quando o assunto é ser só ativo, a questão se é um mais complexa: em uma sociedade machista e hétero normativista como a nossa, a figura de quem 'cede' é tida como tipicamente feminina, e durante o sexo entre gays, quem cede é invariavemente igualado a uma mulher, por assumir um papel que na sociedade é tipo como tipicamente feminino.

Após este raciocínio me deparei com a certeza que o quê realmente incomodava meu amigo não era dar, mas sim ser tido, ainda que pouquíssimo tempo, como uma mulher; o quê realmente lhe incomodava e o fazia se sentir mais gay é o fato de que, ainda que entre quatro paredes ele seria 'dominado', ele estaria 'cedendo', ele estaria sendo o 'frágil' para um alpha igual a ele.

Creio piamente que quando você assume que é do igual que gosta, está invariavelmente reconhecendo a 'possibilidade' de executar os papeis que possam surgir entre quatro paredes ocupadas por dois iguais. Quando o assunto é sexo entre duas pessoas que realmente se amam (ou que estão apenas procurando se divertir de maneira adulta), por qual motivo não fazer 'tudo' dentro dos limites pessoais de cada um? Para quê se restringir a apenas uma 'prática'?

Tudo bem que entre as duas práticas você sempre terá uma como favorita, mas para quê ser tão restrito e não fazer a outra, ainda que com pouca frequência? Num mundo em que tudo passa rápido, acredito que a maneira de aproveitar ao máximo uma transa, é se permitindo, afinal, todo ser humano nasceu física e psicologicamente apta para lidar com sexo - tanto com o sexo oposto quanto com o mesmo sexo.

Ativos, permitam-se descobrir novos prazeres. Passivos, experimentem o outro lado. Versáteis: nós somos o futuro, afinal, num presente em que boa parte dos gays rotulam uns aos outros como brancos ou pretos -  sendo o branco a única combinação para o preto e virce-versa - nós, os cinzas, surgimos para mostrar, outras combinaçoes podem surgir e que isso é sensacional.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ensaio sobre o Leão (Ou Perdido na noite parte II)



Tudo começou com um romance rápido e quando as coisas começaram a ficar sérias Este pulou fora. Aquele já tinha saido de guerras perdidas e com ferimentos suficientes pra deixar Este ir embora sem se importar com o que viria depois. O problema é que por mais que Este, não quizesse ficar, também não ia embora de uma vez e por algum tempo foi assim.

Eis que pouco mais de um ano se passa, Este reaparece. Aquele não conseguia ver Este com os mesmos olhos. Impossível fazê-lo. Álcool. Beijos. Uma liberdade jamais provada antes. Mais beijos, em outras bocas, enquanto pares de olhos familiares observavam em revesamento.

Não veio sexo, nem juras, nem a confusão de outrora, só a sensação de uma amizade regada à uma atração que nenhum dos dois saberia explicar. Amizade confirmada dias depois, quando Este, procura Aquele para chorar mágoas de outro amor e por incrível que pareça não doeu n'Aquele ouvir.

Quando tudo tinha sido deixado para trás? Quando 'algo a mais' foi desligado e a amizade tomou conta? Por qual motivo não tinham dado certo como algo mais?  Existiu algum dia um 'algo mais'? Assim, sem precisar perguntar, apenas pelo quadro da situação, Aquele encontrou respostas sem precisar fazer perguntas. Este as ofereceu de graça, tiro atrás de tiro no peito aberto d'Aquele.

Aquele finalmente entendeu, que o problema nunca foi ele, que aquela sensação de "ele é de mais pra mim" não tinha fundamento algum e concluiu que de repende, pode haver garotos que não nasceram para serem domados, que talvez ele próprio fosse um desses garotos, que serão eternamente livres como um leão.

Um rei nato. Felino, que encanta, mas espanta pelo porte, pela força, pela agressividade e ao mesmo tempo docilidade. Nasce a aliança de amigos de uma Nárnia privada. Aslam não pode ser domesticado.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Perdido na noite


Foto via "Inconfidências Íntimas"



As vezes você se vê agindo de um modo que não saberia explicar. Sexta passada foi assim: com a roupa de um 'passeio à tarde' e quatro caipirinhas na cabeça, eu liguei para 'O músico' e para o 'Mr. T' convidando-os para ir à mesma balada em que na semana anterior, eu tinha conhecido o "Sr. Perfeição".

O músico: antiga paixão, daquelas que você perde a cabeça completamente e que depois de muitos acontecimentos, terminou virando amigo. Uma amizade do tipo que não se esconde a atração que quase sempre rola solta.

Mr. T: um one night stand sem sexo que terminou virando uma amizade daquelas que parecem ter nascido na infância. Um "Alan" fora do meu próprio corpo. Mais parecido comigo impossível. Não me refiro a semelhanças físicas, mas sim no jeito de pensar, na história, nas coisas que já passou. B1 e B2, somos complementares.

Nada de novo na balada. Alguns rostos conhecidos. Mesmas músicas. Mesma vibe. Mesmo tudo, mas eu ainda não tinha me dado conta do motivo pelo qual eu tinha deixado de voltar pra minha casa e com a roupa de um passeio no parque, tinha embalado na noite.

Só pelas tantas da manhã, algumas doses e bocas depois, ao reparar no "Mr. T" ficando com um moço com super cara de bonzinho, foi que reconheci que no fundo o que me levara até ali foi a esperança de reencontrar o "Sr. perfeição". Mesmo dia, mesma casa, mesma programação, um desejo inconsciente.

Não, normalmente não sou de correr atrás de absolutamente ninguém. Já corri, não minto, mas não mais. Então por qual motivo eu estava lá? Exercício complexo: tentar me entender depois de beber, com música alta e gente ao redor, mas minha teimosia foi mais forte e lá estava eu tentando o impossível.

Não consegui chegar à conclusão nenhuma, apesar de reconhecer extamente o que me levou até lá. Não, não o encontrei novamente, mas descobri que as vezes, quem mais aparenta não passar de uma atração é justamente quem mais se importa contigo, quem te protege, quem mais precisa de você, do seu colo e quem menos sabe como lidar com isso.

(Continua ...)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Caminhos


Confesso que nos últimos dias de 2010 e nos primeiros dias de 2011 minha cabeça andou um tanto cheia com coisas antigas: cartas, bilhetes, fotos, anotações, lembranças de algo que aconteceu por um bom tempo, mas que a quase um ano terminou. Quando todo o turbilhão foi embora, parei pra pensar no quê possivelmente tenha me levado de volta ao sentimentalismo, saudosismo e nostalgia que regaram meus dias. Simplesmente não consegui ter uma resposta clara e objetiva como todo taurino adora ter.

Eis que sexta-feira chega, me arrumo e vou pra reabertura de uma das melhores baladas de São Paulo. Casa lotada, som maravilhoso, muita gente bonita e dois shots de tequila, dois cosmopolitans, algumas caipirinhas e um energético depois eu já estava na vibe da multidão que me rondava.

Tudo normal, até encontrar o "Sr. perfeição" no meio da multidão. Ele era bonito, inteligente, charmoso, bom de papo, irônico e ainda me fazia rir, por um bom tempo pareceu que não tinha mais nada ao redor na boate, até mesmo meu leve estado de embriaguez parecia ter passado.

Final da noite chega, aquela muvuca pra pagar as comandas e o "Sr. perfeição" precisava pegar seu carro no estacionamento, me passou seu telefone e eu na ansiedade de continuar a conversa olhando para aquele par de olhos verdes que me interrogavam sem precisar falar muito, anotei o número, cliquei em discar e fechei meu cel. Ele disse que não anotaria o meu, por ter certeza que eu ligaria e que nos veriamos muito em breve.

Volto pra casa e quando procuro o telefone do "Sr. perfeição" no dia seguinte, cadê? A tecnologia trabalhou contra o homem? Ou foi meu QI que trabalhou contra mim? Sábado a noite, indo para a casa de um amigo e olhando a paisagem noturna da cidade, comecei a pensar em relacionamentos (ou possíveis relacionamentos) e São Paulo. Lembrei-me do "Sr. perfeição" e nessa hora, não consegui evitar a sensação de que talvez tivesse perdido a oportunidade de ter 'algo legal', com 'alguém mais legal ainda'. Meu celular pareceu pesar uma tonelada dentro do meu bolso. 

Quais as chances de nos encontrarmos novamente? Em um lugar que nunca pára, quais as chances de dois caminhos se cruzarem duas vezes? Você passa anos frequentando os mesmos locais que alguém excepcionalmente legal sem encontrá-lo e da noite pro dia ele cruza seu caminho para em seguida ser engolido por todo o concreto que nos ronda, como se nunca tivesse existido?

Um amigo veio me dizer, na tentativa de me dar um 'up', que passou anos indo aos locais favoritos de um 'one night stand' sem nunca encontrá-lo e que depois do 'one night stand' eles passaram a se encontrar em tudo quanto era lugar, até mesmo na fila da paradaria. Será que as facilidades de uma cidade enorme e fervida como São Paulo ajudariam a nos reencontrarmos?

Creio que se for pra nos esbarrarmos um dia, São Paulo, o destino, ou sei lá o quê, se encarregará de fazê-lo, mas enquanto isso não acontece, eu leio o manual do meu celular para não repetir os mesmos erros e sigo em frente, porque se São Paulo não pára, eu muito menos.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Aos deuses!

Atena: deusa grega da sabedoria e das artes.

E finalmente chega o ano novo, geralmente as pessoas fazem 1001 metas. Não sou do tipo de prometer coisas quando chega meia noite no dia primeiro de um  novo ano. Sou mais do tipo introspectivo que prefere olhar a queima de fogos um pouco afastado do grupo, da família, sozinho.

Masoquismo? Auto-flagelação? Não sei. Tenho essa necessidade de pelo menos por um segundo, nem que por apenas um único dia do ano, ainda que acompanhado, me impor uma solidão temporária, um silêncio interior, um olhar pra dentro, um tentar ver o Alan como se fosse outra pessoa.

Tenho a mania de analisar a mim mesmo e às pessoas ao meu redor com frequência. Mais uma chatice típica minha: tentar racionalisar tudo. Aliás, não sou chato, só perfeccionista e me cobro um pouco de mais.  E é justamente quando dá meia noite e os fogos de artifício explodem que meu maior carrasco chega: eu mesmo. Justamente quando todo mundo comemora eu paro pra acertar as contas comigo.

E enquanto o resto do mundo comemora a chegada de um novo ano, eu ao mesmo tempo que mandava minhas mais sinceras saudações à Poseidon, era julgado na minha santa inquisição pessoal. Ainda me restam 'crimes' do ano que passou a serem julgados, mas é sempre bom perceber que o tempo levou algumas coisas que precisavam ser levadas. Assim como é duro reconhecer que há coisas que por mais que você espere que Zeus destrua ou Poseidon afunde, Hestia continua mantendo pra lembrar quem você realmente é, só espero que Atena dê-me sua bênção para mais uma fase.