quarta-feira, 11 de junho de 2014

Mulligan

"A mulligan, in a game, happens when a player gets a second chance to perform a certain move or action (Unknown Author)

Ser gay e solteiro na cidade de São Paulo, as vezes é como ser uma criança e andar pela doceria. Do caminho do trabalho, para o happy hour, você passa por uns 15 caras extremamente pegáveis. A questão é: e quando você namora? 

Recentemente, fiquei sabendo que um casal de conhecidos tinha passado por uma crise básica porque um deles, durante uma volta na doceria, tinha dado uma mordida de leve em um doce qualquer, esquecendo-se que namorava, ou neste caso, que era diabético. 

Minha surpresa foi saber que após um leve drama eles continuaram juntos. Não sou de julgar, mas não consegui evitar de ficar pensando o que motivaria continuarem com um relacionamento após uma situação como esta, visto que a relação era monogâmica até então e nenhuma das partes havia posto em pauta a possibilidade de modificar isso. 

Estando na casa dos vinte e poucos, já aprendi que confiança e respeito são coisas que não podem ser recuperadas, mas que todo o resto num relacionamento pode e deve ser negociado, que cada casal é um organismo distinto de outro casal, seja ele gay ou hétero. Analisando essa suposta negociação, só consigo concluir que ela acontece em nome de uma coisa: a bendita segurança. 

É em nome dela que se aceita um terceiro elemento em sua cama; é em nome dela que se aguenta dedos em riste e tons exaltados; é em nome dela que muitos casais héteros e gays, continuam com suas vidas ignorando seus problemas e exercendo seu papel de 'casal de comercial de margarina'. 

Por trás de toda essa necessidade de segurança, há também comodismo. É mais fácil continuar com um relacionamento sem intensidade e sem frio na barriga do que encarar todo o processo de desligamento da outra pessoa. O comodismo não deixa enxergar que em certas situações é muito mais digno e empreendedor seguir seu caminho solteiro.

Não acho que eles tenham agito errado (nem certo) reatando, mas não aceito a ideia de terem possivelmente reatado por medo de ficarem sozinhos. Desejo por terceiros é normal, faz parte do instinto animal do ser humano. Assim como está no ser humano a capacidade de auto-controle e de aprender com seus erros. Ao menos eu acho... 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O príncipe da Consolação

Eliseu é o príncipe da Consolação. Ele sabe o que é ser hype. Está com a pulseira de todo camarote de São Paulo e se formou naquela faculdade de nome americanizado, junto com os filhos dos empresários de renome da cidade que só irão trabalhar depois de formados e na empresa da família. 

Roupa? Só de marca. Corte de cabelo? Só se for naquele salão super moderno com carro de época estacionado no centro como objeto de decoração. Happy hour? Só nos bares que servem Absolut, porque cerveja é coisa que só se toma na Benedito Calixto, de sábado a tarde, enquanto se ostenta aquele topete impecável, óculos de marca, sorriso brasé e uma eterna cara de tédio. 

Eliseu já viu de tudo. Tel aviv é seu quintal. Europa é destino padrão nas férias. Faz sucesso no insta com seus looks sempre bem elaborados. Dividir apartamento é para caipiras. Ele mora sozinho em um flat. Sangria é a bebida padrão para uma noite de quarta e um bom Malbec para qualquer dia que se fizer frio, poxa!

No verão, vai curtir os meninos do Rio; no inverno, convoca as amigas para finais de semana em Campos do Jordão. Carnaval? Praia mole, Floripa, lógico! Onde mais seria? E óbvio, que Eliseu não anda de ônibus. É coisa de pobre. Só se anda de táxi e para ir trabalhar é a pé, afinal, nem é tão longe assim da Alameda Angélica para a Av. Paulista. 

Namorar? Só se for com aquele cara um pouco mais velho, rico e de preferência passivo. Mas enquanto não namora o negócio é ser visto nas melhores festas com aquele amigo mais íntimo. E todas as coisas más que dizem sobre Eliseu? Tudo inveja, afinal, quem não queria ser Eliseu? O importante é acreditar...