quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Rolando

A gente sempre guarda a primeira vez de quase tudo na memória: primeiro beijo, primeira transa, primeiro porre, primeira briga com o melhor amigo, mas na vida há sempre primeiras vezes que se repetem. Por exemplo: a primeira vez que você vai cair na noite depois de terminar seu último relacionamento. 
Toma banho, prova metade do guarda roupas. Pede opinião da mãe. Volta. Muda tudo. Cabelo arrumadinho ou bagunçado? Peraí, mas eu vou de óculos? Perfume discreto ou aquele que fica depois que você passa?
Eu todo arrumado e pé no mundo. Primeiro choque: quando que o pessoal nascido em 1996 começou a sair? Opa, mas não é remix que toca aqui? Menina, e aquela drag com um cocar na cabeça? Vamos pro bar... 

Bebe, bebe mais um pouco, bebe novamente...

Gente, mas que música boa! Beeeeeeesha, eu amo Iggy Azalea. Vai, desce, viado. Work, work, work, I'm working on my shit. Anda logo, quero ir pra outra pista. Merda de gente que pára na escada. 
Gzuys, que fila de banheiro enorme. Droga, piso molhado. Não tem papel toalha? Arrrrght, essa vodka é batizada, certeza. 
Merda de boate com o piso todo molhado. Hei, filho, anda. Não pára na escada! Poooooooooxa, tá tocando Sia. Corre! 7 degraus de bundinha, crise de risos, arranhões e alguns roxos depois, posso concluir: a vodka era batizada. 



domingo, 9 de novembro de 2014

Nhee



Ela: E o que aconteceu com vocês?
Ele: A vida...
(Cena do filme The Blueberry Nights, com Norah Jones e Jude Law)


Eu poderia enumerar 1001 motivos para não gostar de anos pares. Anos pares nunca foram bons. Nada par nunca foi bom. Outubro é par, também não foi bom... Eu poderia justificar com o trânsito, a falta de chuva e a correria dos dias ou com o dinheiro que andava curto e o sapato que apertava. Tudo mentira.
Na verdade os dias tem passado bem, eu que não. Terminar relacionamentos tem dessas. Você leva um tempo pra sentir que é você de novo e mais tempo ainda para perceber o quê do outro você andou pegando ao longo do tempo juntos para montar aquilo que você chama de "Eu". 
E nessa fase, o tempo volta com suas dualidades. Tem dias que passam rápido, outros levam uma eternidade. Tem horas que são anos e minutos que você se sente tão aéreo que mal parece realmente você. Então, em um segundo de distração qualquer, você quase esquece e quase se sente normal de novo.
Taí uma coisa que ninguém nunca escreve sobre términos: você não morre de tristeza. Nem passa a viver carregando ela como um acessório. Você continua saindo, vivendo, trabalhando, rindo, mas no fundo, bem lá no fundo, a sensação que você carrega é a que eu chamo de: nhee. É se sentir anestesiado por um tempo... É um dar de ombos.
Você evita conversas, pessoas, cultiva silêncios e nem por isso entrega-se à apatia. Ao contrário, tanto tempo sozinho e em silêncio te mostra toda a imensidão do seu mundo interior e a insignificância disso em um contexto geral. Então, você entende numa quarta-feira qualquer, parado no trânsito, que esse vazio no estômago é passageiro, que logo esses instantes de catarse passarão.
Semana passada vi o por do sol sozinho num roof top aqui em São Paulo. Por um segundo parecia que toda aquela luz ia me engolir, o calor me deixou menos 'nhee' e eu soube que estava tudo bem comigo. Não precisava de palavras para saber aquilo. E a vida continua...