domingo, 9 de novembro de 2014

Nhee



Ela: E o que aconteceu com vocês?
Ele: A vida...
(Cena do filme The Blueberry Nights, com Norah Jones e Jude Law)


Eu poderia enumerar 1001 motivos para não gostar de anos pares. Anos pares nunca foram bons. Nada par nunca foi bom. Outubro é par, também não foi bom... Eu poderia justificar com o trânsito, a falta de chuva e a correria dos dias ou com o dinheiro que andava curto e o sapato que apertava. Tudo mentira.
Na verdade os dias tem passado bem, eu que não. Terminar relacionamentos tem dessas. Você leva um tempo pra sentir que é você de novo e mais tempo ainda para perceber o quê do outro você andou pegando ao longo do tempo juntos para montar aquilo que você chama de "Eu". 
E nessa fase, o tempo volta com suas dualidades. Tem dias que passam rápido, outros levam uma eternidade. Tem horas que são anos e minutos que você se sente tão aéreo que mal parece realmente você. Então, em um segundo de distração qualquer, você quase esquece e quase se sente normal de novo.
Taí uma coisa que ninguém nunca escreve sobre términos: você não morre de tristeza. Nem passa a viver carregando ela como um acessório. Você continua saindo, vivendo, trabalhando, rindo, mas no fundo, bem lá no fundo, a sensação que você carrega é a que eu chamo de: nhee. É se sentir anestesiado por um tempo... É um dar de ombos.
Você evita conversas, pessoas, cultiva silêncios e nem por isso entrega-se à apatia. Ao contrário, tanto tempo sozinho e em silêncio te mostra toda a imensidão do seu mundo interior e a insignificância disso em um contexto geral. Então, você entende numa quarta-feira qualquer, parado no trânsito, que esse vazio no estômago é passageiro, que logo esses instantes de catarse passarão.
Semana passada vi o por do sol sozinho num roof top aqui em São Paulo. Por um segundo parecia que toda aquela luz ia me engolir, o calor me deixou menos 'nhee' e eu soube que estava tudo bem comigo. Não precisava de palavras para saber aquilo. E a vida continua...





6 comentários:

  1. que bom que contribuí de alguma maneira.

    achei engraçado a maneira como você disse que acha pares desconfortáveis, quando na maioria das vezes a gente passa a vida toda tentando ser par.

    melhor às vezes é ser ímpar como o sol aí do seu terraço em São Paulo.

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  2. Olha, eu até que tinha dessas de não gostar do ano Y ou X, até que mesmos últimos anos se embolaram... já não sei mais de qual gosto! :P

    Engraçado, o Sol tem um poder mágico para mim, ele tem esse poder de energizar, clarear, limpar e até deixar a gente menos "nhée" mesmo.

    No mais, guenta ai, que tudo passa! E passa mesmo!

    Abração, se precisar, conte comigo!

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  3. Gostei muito do seu tempo, um pouco exemplificou o que estou sentindo ultimamente e o "nhee" foi a palavra perfeita. Outro dia quase me vi parando meu carro em um monte aqui na minha cidade para espairecer, já que na minha cidade não tem rooftop. Enfim, espero melhoras para você! Também pode contar comigo!

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  4. A vida acontece e não dá mesmo pra evitar. E mesmo quando a gente pede calma, ela continua acontecendo e não pára.
    Eu parei numa livraria esses dias e folheei um livro onde a autora investiga quem era ela antes de tal pessoa... e o vírus do momento no meu face é dizer que você é feliz quando passa a ver o mundo de outro jeito, não porque ele tenha mudado, mas porque você mudou.
    Acho que esse momento nhee tem um pouco disso... Não é sobre voltar a ser quem você era antes dessa fusão. É sobre o que essa fusão ensinou, acrescentou, mexeu e mudou em você. Sobre quem você vai ser daqui pra frente.
    Alguém me disse que somos sempre o mesmo rio, que já não corre a mesma água. O tempo todo nos deparamos com uma água nova... talvez por isso seja tão complicado se sentir completamente definido, conectado, "encontrado" em si mesmo.
    Par pode ser bom. Mas antes de formar um par é preciso ser um ímpar inteiro.

    Eu sei que você vai ficar bem. Você sabe também . Eu te amo!

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  5. que lindo texto! parabens! parabens! eu nunca tinha pensado na minah vida em termos de anos pares e impares, vou tentar fazer esta analogia para ver o que me espera no ano que vem! abraços1

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